segunda-feira, 11 de abril de 2011

Brigas e desentendimentos

Um casal que viveu junto por muito tempo e diz que nunca se envolveram em uma briga  ou em um desentendimento, tem problemas. Pois é nítido que um domina o outro, e não é para ser assim. Embora os papéis sejam distintos e diferentes (vide post anterior), um não pode exercer coação ou domínio sobre o outro, mas devem andar e decidir juntos.
O casamento é a junção de duas mentes distintas. Tanto o  homem como a mulher foram criados em ambientes diferentes, famílias diferentes, culturas diferentes, costumes diferentes e tradições diferentes. E quando isso tudo se junta, o choque é inevitável.
Além de tudo isso que eu citei, cada pessoa tem a sua própria identidade, personalidade e visão de mundo.
É claro que quando o amor permeia a vida de duas pessoas, elas tendem a ser mais tolerantes e a aceitar essas diferenças com um pouco mais de naturalidade, às vezes acham até engraçado quando um expõe ao outro suas manias e a maneira como foram criadas por suas famílias. Eu, por exemplo sempre aprendi a usar duas facas na mesa do café da manhã, uma para cortar o pão e a outra para passar a manteiga. A Célia – muito mais prática – usa a mesma faca para as duas tarefas. Isso não necessariamente cria um mal estar ou uma rusga, mas é um pequeno choque de culturas. Ok... eu confesso, isso me tira do sério! Mas é óbvio que eu também tenho manias herdadas de meus pais que a devem deixar intrigada. É a vida!
Muitos são os motivos pelos quais os casais chegam a discutir e a se desentender. Um relacionamento passa por algumas crises ao longo de sua existência. Há quem diga até que exista a crise dos 7 anos, e por aí vai. Mas a verdade mesmo é que nenhum casamento resiste às crises financeiras, ao desemprego e até mesmo à gravidez, sem que haja desentendimentos.
Evitar esses enterpérios é praticamente impossível. Seria como tentar evitar os terremostos, evitar uma tempestade, não há como. O que pode se fazer é preparar-se ou prevenir-se, mas não evitar.
Eu tenho aprendido que é preciso que o casal entenda que um não é adversário do outro, não há uma competição entre eles, não estão disputando um jogo onde haverá sempre um vencedor, mas as pessoas dentro de um relacionamento sempre lutam para conquistar um prêmio específico. Que prêmio é esse? A RAZÃO.
Sim, alguém sempre tem a reazão no universo da vida a dois, mas ela não precisa ser disputada em um campo de batalhas onde as armas são ofensas, xingamentos, gritos, palavrões e insultos. Quando partem para esses recursos, então a razão já foi embora há muito tempo, não estará nem com um, nem com o outro. O que vai restar é silêncio, falta de afeto e problemas ainda maiores mais a diante.
O meu remédio para uma discussão, é a defesa. Ceder a razão mesmo quando se a tem. Pode parecer uma atitude covarde ou de pobreza de argumentos, mas Stalin dizia que às vezes é preciso se dar um passo atrás para se dar dois à frente. Eu sei que as pessoas tem temperamentos diferentes e cada cabeça é um universo diferente, mas se você recuar, e logo em seguida demonstrar algum tipo de carinho, o outro vai reconhecer que estava errado – no mínimo vai querer rediscutir, mas agora com uma mente um pouco mais solícita e aberta.
Outra atitude que pode ser tomada é interromper a conversa quando esta começar a sair de um padrão de civilidade aceitável. Dêem-se um tempo, saiam, andem um pouquinho, coloquem as idéias no lugar e então retomem o assunto.
Agora a parte que eu mais gosto e a mais difícil para os coraçõezinhos de pedra: Pedir perdão! Após um desentendimento, por mais certo que você esteja e por mais que o cônjuge reconheceu, mesmo em um acesso de fúria, que estava errado, peça desculpas. Façam isso pelo bem dos dois. Sejam humildes. É difícil, eu sei. Mas insistam. Acredito que o casamento é a união de duas mentes inteligentes, e as pessoas sabem que uma atitude inteligente é mudar de postura, reconhecer seus defeitos e torná-los em comportamentos mais aceitáveis. Isso se aplica também a todos os relacionamentos familiares.
Agora uma dica das mais importantes de todas. Nunca, eu disse, nunca deixem o lar de vocês para trabalhar, sem antes terem resolvido um assunto pendente. Vários são os perigos, vou citar os que considero mais perigosos:
a)      Sempre vai aparecer alguém no trabalho (do sexo oposto), que notará a sua tristeza ou descontentamento. Essa pessoa vai insistir para que você conte o que está havendo. Aí você acha que seria bom mesmo desabafar, saem para um cafézinho ou uma “aguinha”, você desabafa, conta tudo aquilo que deveria ser sigiloso. A outra pessoa o consola, geralmente te dá razão por estar chateado – isso sem saber o que realmente está havendo ou ouvindo apenas a sua versão da história – te diz palavras de encorajamento e, bingo! Vocês iniciaram uma amizade mais aproximada, deixaram de ser colegas de trabalho para serem confidentes. E como você já tem alguém que te escuta e te dá razão fora do lar, então você chega em casa sem muito desejo de resolver aquele assunto que ficou pendente. E dia após dia os “cafezinhos” evoluem para almoço, aquela pessoa do trabalho parece ser tão especial, ela te entende, tem qualidades que seu cônjuge não tem... Preciso dizer aonde isso vai parar? Claro que não, até porque,  como eu coloquei anteriormente, vocês são inteligentes. Resolva sempre as pendências, não as leve para o trabalho e não as compartilhem com mais ninguém, nem com seus pais, resolvam juntos, pois a vida de vocês diz respeito apenas a vocês.
b)      A segunda é um pouco mais dramática, mas cabe narrar uma estória que li em um livro. Certo dia uma mulher estava sentada na recepção de seu pequeno hotel numa beira de estrada. Uma outra mulher chegou, estava perdida e queria passar a noite ali e prosseguir viagem no dia seguinte. A dona do hotel a acomodou em um bom quarto e voltou para sua cadeira na recepção. Horas depois, a hóspede surgiu e notou um olhar distante e triste naquela senhora. Achou que podería sentar-se ao lado dela e conversar um pouco, e assim o fez. Iniciaram uma boa conversa, bastante agradável. Mas a hóspede não pôde deixar de perguntar: “A senhora vive aqui sozinha? Seu marido chega a que horas?”. A senhora então a fitou com aqueles mesmos olhos profundamente tristes e disse: “Ele não chegará.” E virando-se para a grande porta de entrada, continuou: “Nesta semana fará dois anos que eu e meu adorável Aníbal tivemos uma discussão. E meu orgulho besta não permitiu que eu aceitasse as desculpas dele. Então logo pela manhã ele saiu para trabalhar. Eu ainda vi a porta fechar atrás dele, mas não o detive. Aquela foi a primeira vez em muitos anos de casamento que ele saíra para trabalhar sem que me desse um beijo de despedida. Algumas horas depois de sua partida, atendi a batidas na porta. Era uma dupla de policiais que vieram me avisar que meu Aníbal fora atropelado na cidade ao atravessar uma rua. Eu entrei em pânico. Foi o dia mais terrível da minha vida.” A senhora deu uma pausa, segurou a mão daquela sua hóspede e concluiu. “Reconhecer o corpo de meu esposo no IML, vestí-lo para o funeral, ver seu caixão baixar à sepultura, dormir a primeira noite sem a companhia dele, nada disso me doeu mais do que a sensação de culpa que até hoje me consome por tê-lo deixado fechar aquela porta atrás dele, sem que eu o perdoasse pela discussão que tivéramos, na verdade, eu é quem deveria ter pedido desculpas naquele dia.”
Mais uma estorinha triste e melancólica. Eu sei. Me perdoem, mas vocês entendem o perigo de se deixar assuntos pendentes dentro de um relacionamento? Repito: sejam humildes, meus amigos. Não disputem, não sejam adversários. Gosto de uma música do Pearl Jam chamada Soldier Of Love (Soldado do Amor). Essa música começa com a frase: “Lay down your amrs and surrender to me”, que traduzido significa “Abaixe as suas armas e renda-se a mim”. Eu aconselho a ouvirem essa música e entenderem a sua letra. (Aqui está o link: http://letras.terra.com.br/pearl-jam/30368/traducao.html).
Uma sugestão para se acabar com um conflito foi me ensinada pela Lorena, minha filhinha caçula de 3 aninhos. Este fim de semana eu estava conversando algo importante com a Célia no quarto e a pequena Lorena ia na porta e dizia algo. Eu pedia a ela que fosse brincar e que deixasse conversar com a mãe dela. Na segunda vez eu fui um tanto rude e disse: “Lorena, saia já dessa porta e vá brincar.” Ela resmungou alguma coisa que eu não consegui entender e se foi. Na terceira vez eu abri a porta, abaixei-me e disse carinhosamente que fosse brincar com a Valéria. Horas mais tarde eu estava na cozinha lavando a louça (uma excelente terapia para se esfriar a cabeça depois de uma discussão), e deparei-me com a pequena Lorena à minha frente. Olhei para ela e vi que queria me dizer algo, então ela me olhou com aqueles olhinhos pretos e, balançando os cabelos emaranhados, disse: “Papai. Eu disse lá no quarto que num te amo, mas eu te amo sim, viu?! 
Ela acabou comigo. Abracei-a e disse que também a amava. Enquanto aquela silhueta pequenina se afastava para continuar brincando com suas bonequinhas, quase que pude ouví-la cantar na minha mente em alto e bom inglês: “Lay down your arms and surrender to me, papai.”.

2 comentários:

  1. Bispo, muito lindo, claro que aki em casa quem sempre tem razo sou eu rsrsrsrsrsrsrs.
    Brincadeirinha
    abraço

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  2. ai, até me emocionei com o final, como aprendemos com estes pequeninos, né?!! penso que as maiores lições veem destes "menores" seres. abraço!!

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