quarta-feira, 30 de março de 2011

Aprender a ouvir


Marion Romney estava preocupado com os problemas auditivos manifestados por sua esposa, Mary. Na idade avançada em que eles se encontravam, era mesmo de se esperar que surgissem algumas deficiências. Mas aquilo estava demais. Por vezes a chamava e ela não respondia. Fazia comentários a uma curta distância e, nada.
Sem querer constranger sua amada ao comunicá-la de sua descoberta, procurou um especialista na área. Explicou o que estava acontecendo com sua esposa, pediu a opinião do médico e como ele poderia abordá-la para dar-lhe notícia de que precisaria de um tratamento. O médico deu o seu parecer, mas não quis emitir um diagnóstico até que pudesse examiná-la cuidadodamente. Então sugeriu a Marion que fizesse um teste com ela para avaliar o grau de surdez em que se encontrava sua adorada Mary: o doutor pediu que a chamasse de três pontos diferentes com pequenas pausas e cada vez que o fizesse, chegasse um pouco mais próximo a ela. Marion consentiu e voltou para a sua casa ansioso por saber qual seria o nível de surdez em que sua esposa se encontrava.
Chegando em casa, logo percebeu que ela estava na cozinha preparando o jantar. Chamou-a pela primeira vez dali mesmo da porta da sala. Inclinou a cabeça ligeiramente à frente tentando aguçar sua percepção – nenhuma resposta. Andou alguns passos em direção à cozinha. Parou em um ponto que julgou ser a metade do caminho e chamou-a novamente. Virou a cabeça de modo que o ouvido ficou projetado em direção à cozinha e, nada. Sem muita paciencia e já preocupado, chegou à porta da cozinha, viu-a cortando salsinha na mesa e chamou-a pelo nome com um tom de voz intrigantemente alto: “Mary?!”. Ao que ela respondeu: “O que é Marion? Fala logo, homem. É a terceira vez que respondo.”
A historinha aqui narrada é tão engraçadinha como verídica.
Por vezes pensamos que a deficiência em ouvir está com a outra pessoa, quando na verdade está conosco.
Aprendemos a ouvir quando nos desarmamos de todos os preconceitos (pré conceitos) que formulamos antes mesmo que nosso interlocutor termine sua mensagem. Temos a mania de sermos automáticos e de deduzirmos que já sabemos a resposta – geralmente correta – para um problema que está sendo apresentado.
Ouvir, em um relacionamento conjugal, não é tão simples quanto parece ou pensamos que seja. Exige prática, paciência e, em casos mais extremos, sacrifício. Para os homens geralmente é mais difícil, uma vez que sempre usamos respostas prontas e práticas. Parece que temos a tendência de abreviar a conversa com alguma solução bastante simples e prática para a situação que a esposa está tentando expor. Claro que não posso generalizar, há uma parcela (ínfima) de homens que estão sempre dispostos a ouvir com atenção e cuidado.
A verdade é que ouvir é muito mais do que deixar que palavras adentrem nosso sistema auditivo. Não podemos ignorar as mensagens corporais e a linguagem não verbal utilizada por marido e mulher dentro de um relacionamento. Me perdoem as mulheres mas vocês precisam entender que é muito difícil para nós homens adivinhar o que vocês às vezes querem nos dizer ou que façamos. Não custa nada dar uma forcinha fazendo um gesto ou mesmo dando dicas do que vocês desejam. Que tal? Entendam: nós somos um pouquinho distraídos e, na maioria das vezes, não fazemos por mal.
Já nós homens, precisamos exercitar mais o hábito de fazer uma leitura mais cuidadosa de todo o contexto apresentado nos diversos cenários em que nos encontramos ao logo de nossa existência a dois. Por exemplo, quando a minha adorável Célia se deita ao final de um dia cheio e extremamente cansativo, ela vira as costas para o meu lado e toca com os dedos os próprio ombros sem emitir uma só palavra, mas a mensagem é clara e objetiva: “faça uma massagem para eu possa dormir melhor!” E não importa o quão cansado eu esteja naquele momento, atendo.

Alguns vilões da audição no relacionamento conjugal:

1)      Videogames.
Uma cena muito comum hoje é a esposa em um canto do sofá falando sozinha enquanto o maridão tenta, de maneira heróica, passar por aquela fase difissílima do jogo no seu PS3. O diálogo aqui é praticamente impossível. Até porque o esposo já tem monstros, inimigos e jogadores adversário demais para se preocupar. Aí ela se cansa de receber todos aqueles acenos positivos com a cabeça e olhares penetrantes – esses últimos, não para ela – e vai para o quarto esperar que o grande objetivo seja conquistado no jogo.

2)      Computador
É incrível como a Internet une tanto as pessoas que estão a quilômetros de distância e separa as aqueles que estão no mesmo cômodo da casa. Aqui também a concorrência é desleal, pois a conexão utilizada aqui não permite múltiplos usuários. Louvada seja a Internet quando casais que estão separados por conta de uma designação de trabalho ou estudos, unem-se mesmo que seja por dígitos, imagens e sons, dentro de MSNs e outras ferramentas instant messengers.

3)      Trabalho
O trabalho que não pôde ser terminado no escritório adentra a casa e vara a madrugada. Ele ou ela, que estaria esperando seu cônjuge com ansiedade para contar como foi seu dia, trocar idéias ou mesmo discutir a relação, tem que esperar que o relatório fique pronto ou que a planílha seja terminada. Até se arrisca a uma conversa, mas tudo o que ele ou ela ouve são as cobranças do chefe por aquela tarefa que não pode esperar. As pessoas precisam aprender a deixar o trabalho na empresa, ou pelo menos, fazer pausas prolongadas para ouvir um pouco o que ele ou ela tem para falar sobre o seu dia.

4)      O programinha com os(as) amigos(as)
Eu sei que socializar-se é muito bom, fazer o networking, participar do happy hour em que todos os amigos do escritório estarão (inclusive o chefe), mas tem alguém em casa esperando para passar um momento happy, também. É impressionante como temos disposicão para ficarmos horas ouvindo os problemas, conquistas, críticas, dissabores e lorotas dos outros e não dedicamos tempo suficiente para ouvir a quem amamos. Quer fazer um programinha com os(as) amigos(as), leve o seu melhor amigo – seu cônjuge. Por que ele(ela), não pode também desfrutar de sua companhia e rir um pouco ao final de um dia de trabalho?

Acredito que haja muitos outros vilões do sistema auditivo conjugal que atrapalham a comunicação. Quanto aos aqui apresentados, creio que terei um post específico para cada um deles mais adiante.
O que precisamos estar atentos é ao que está sendo dito por aqueles que amamos, porque é isso que verdadeiramente importa.
Ao dedicarmos um pouco mais de atenção para não somente escutar, mas ouvir aos nossos cônjuges, nossos relacionamentos fluirão de maneira mais leve e natural. A confiança irá aumentar, o respeito será fortalecido e o amor, é claro, será nutrido.

Termino com uma frase que ouvi há um tempinho e que me fez ponderar o quanto nossos gestos falam por si e o quanto podemos extrair de um comportamento ou atitude de quem convivemos. Não sei quem é o autor, mas diz assim: “O que fazes soa tão alto, que não consigo ouvir o que dizes.”

3 comentários:

  1. Fabiano, vc deve pensar em escrever um livro sobre relacionamento...adorei. aguardo as próximas publicações.
    Ana Daniel

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  2. então acho que a moral da história sobre aquele ensinamento da 'trave no olho' também serve para o ouvido, né?! rsrsrs..pois é!! Gostei muito deste texto. Preciso mesmo aprender a ouvir mais e melhor !! Obrigada!!!

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  3. Muito bom !! aprendo muito lendo seu blog !!! Obrigada =)
    Ana Paula Moises

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