Continuando
minha saga de pai-pra-toda-obra,
enquanto lavava louça pela manhã, fui interpelado por meu filho #3, o Lamôni
(antes que se adimirem com esse nome devo dizer que ele, o nome, tem uma
história. Lamôni foi um rei que governou um povo nas Américas aproximadamente
300 a.C.). Depois da breve aula de cultura da America pré-colombiana,
continuemos.
Meu filho
me perguntou se na sexta série, no ano que vem, ele podería mudar de escola.
Logo percebi algo diferente nessa pergunta, então foi a minha vez de
questionar: “Por que você está querendo isso?” Ele baixou a cabeça e disse: “É
porque eu não gosto de estudar nessa escola em que eu estou”. “Mas por que você
não gosta?” – Insisti. Ele então disse aquilo que eu já esperava: “Porque estou
tendo problemas na escola.” Então ele me falou os tipos de problemas os quais estava
tendo.
Primeiro,
tem um menino que não gosta dele e que se irrita quando ele bate com a caneta
na carteira durante os intervalos das aulas. E certo dia esse garoto puxou a
caneta da mão dele, essa se abriu e espirrou tinta sobre a camiseta desse
menino. O que rendeu ao Lamôni uma ida à diretoria e algumas ameaças já
conhecidas, do tipo “lá fora eu te pego”. Mas não passou de uma ameaça.
Segundo,
ele disse que uma menina o esnoba na escola. Certa vez, quando um coleguinha
distribuía pirulitos para umas garotas no intervalo das aulas, o Lamôni foi
preterido quando pediu um, recebendo um sonoro “não” do garoto. Uma das meninas
– aquela que não vai com a cara dele – disse: “Dá um pra ele, coitado, ele não
tem dinheiro para comprar, mesmo.” Com raiva, ele fez com ela uma brincadeira costumeira
entre os meninos na hora do recreio: puxou o pirulito da boca dela e correu. O
que lhe rendeu mais um “te pego lá fora” para sua coleção.
Terceiro
ele falou que essa menina fica falando do chulé dele o tempo todo e, claro,
todos na sala tiram um sarro de sua cara.”
Agora eu
vira aqui uma oportunidade de ensinar meu filho, de aproximar-me dele, de encorajá-lo
e fazê-lo aumentar sua auto-estima. Porque tenho uma forte impressão de que
sofrer bullying tem muito a ver com a auto-estima de alguém, não que o ato
discriminatório crie uma sensação de baixa auto-estima, mas que a criança ou o
jovem, já traz consigo um défice de de auto-estima, isso é notado pelos outros,
que passam a fazer chacotas e perseguições, tanto físicas, como emocionais em
alguns casos, físicas.
Passei
primeiro a trazer o Lamôni para a realidade e dizer as coisas erradas que ele
fizera nas três situações narradas.
No primeiro
caso, eu disse a ele que bater a caneta na carteira, mesmo que baixinho numa
sala de aula, pode desconcentrar ou irritar outras pessoas e se ele não queria
ser o alvo das atenções deveria parar com isso.
No segundo
caso eu tive que concordar com a menina da sala, e eu disse isso pra ele, claro
em tom de brincadeira de modo que o fiz rir da situação.
No terceiro
caso eu frisei a falta de respeito para com a menina ao puxar o pirulito da
boca dela, num revide desnecessário e numa brincadeira fora de hora.
Todos podem
estar pensando: “nossa, como ele pode ser tão duro com o pobre menino que está
passando por uma situação difícil como essa?” Apenas penso que em uma conversa entre
“amigos”, deve-se jogar aberto, encarar os fatos e analisá-los de maneira fria
e crua.
E depois
disso comecei então a encorajá-lo. Eu disse a ele que precisaria manter-se
acima dessas coisas, simplesmente ignorar. Lembrei-o de quão especial ele é e
como ainda tería coisas grandiosas para fazer nessa vida. O Lamôni é um garoto
de muitas qualidades. As pessoas vivem dizendo que ele vai ser um ótimo líder,
que ele é muito esperto, comunicativo e inteligente – e de fato ele o é.
Conversamos
bastante enquanto eu lava a bendita da louça. Inclusive, contei a ele algumas
das minhas histórias de garoto, da época em que esse tal de bullying tinha o nome de “por que vocês
não páram de me encher o saco e vão brincar de roleta-russa?”
Falei muito
sobre as injustiças que passamos ao longo de nossas vidas e o quanto outras
crianças e adolescentes sofrem perseguições bem piores do que as que ele está
passando. Contei a ele de uma época de minha infância em que eu costumava brincar
com duas crianças da minha rua, eram dois garotinhos que tinham brinquedos
muito legais e eu adorava ficar com eles na garagem da casa. Como muitas outras
crianças da minha época, e de hoje, eu tinha piolhos. Não era nenhum criatório
particular, mas tinha lá uns bixinhos perambulando pela minha cachola. Quando a
mãe dos meninos descobriu isso, passou a não deixar mais eu ficar perto das
crianças dela, chegou até a me dizer que não queria que eu brincasse mais com
os filhos dela por conta do contágio que eu podería causar.
Embora eu
fosse um garoto de uns 9 ou 10 anos, eu compreendi a situação. Mas o que eu
sentia mesmo é que eu não precisaria aceitar as situações desagradáveis e
descriminatórias pelas quais eu passava. Eu não me abatia porque sabia o valor
que eu tinha. Me apegava sempre aos elogios que as pessoas me faziam, preferia
ficar com as partes boas da minha personalidade ou situação sócio-econômica. Me
lembro que um homem que morava nessa mesma rua, que me disse certa vez: “Você é
um garoto inteligente e muito consciente. Se tivéssemos mais uns 10 moleques
assim como você, nossa rua seria muito melhor.”
Depois de
contar mais umas histórias para o Lamôni, percebi que ele já estava mais
conformado com a situação. Passou a entender o ponto de vista, e vi que ele
aceitou aquilo que eu falara com respeito a manter-se acima daquelas coisas.
Então pedi
a ele que fizesse algo que eu fazia na escola e que dava certo – que ele
procurasse ter o seu próprio círculo de amizades, que ele procurasse e
identificasse aqueles garotos da escola que eram mais zuados pelos outros e se
unísse a eles. Eu aprendi que essa garotada perseguida é, na sua maioria, composta
de meninos e meninas legais e agradáveis, mas por causa de uma personalidade um
pouquinho fora do padrão (e nem sei se deveria existir um padrão, pois cada um
é livre para ser e agir da maneira que quiser), acabam por ficarem isoladas e são
execradas pelo resto da turma. Dos grandes amigos de minha infância que tenho
lembrança, todas pertenciam a essa “classe”.
A conversa foi
boa, durou o tempo que eu precisava para lavar a louça e terminar o almoço. Foi
bom conversar com meu filho sobre esse problema e foi melhor ainda ajudá-lo a
encontrar as soluções por si mesmo. Porque nem sempre eu estarei lá em uma
situação difícil, então preciso que ele aprenda a se safar e a se defender, sem
violência, mas com muito jeito e inteligência, e como eu conheço meu filho, sei
que isso não será difícil para ele!

Estava pensando exatamente sobre bullying esta semana e claro que não justificando ou achando uma prática linda - não o é: o ser humano desde criança é extremamente cruel - cheguei ao pensamento de que algumas pessoas que sofrem bullying deixam que isso aconteça. Porque o ser humano aceita certos rótulos, acredita naquilo que pessoas dizem a seu respeito, sem sequer indagar ou questionar?
ResponderExcluirAdmiro sua atitude com o Lamôni Paixão, porque creio que esta é a melhor maneira de fazer com que ele se auto avalie como e saiba se valorizar por suas qualidades. Acredito que uma pessoa, para enfrentar qualquer tipo de bullying em seu nível mais grave, assim como as corriqueiras críticas e discórdias da vida precisa se sentir seguro e plenamente amado dentro de casa. Assim como é Lamôni e todos os seus outros 5 filhos. Amados intensamente do jeitinho que o são. Thais Brentari
Algumas destas crianças que praticam o bullying estão apenas descontando nos colegas os maus tratos que sofrem em casa, se todos os pais se importassem em parar um pouco pra conversar com eles (ou fazer enquanto 'lava a louça') muitos destes casos seriam evitados. Tenho horror a isto, este negócio de bullying me irrita demais.
ResponderExcluirE o Lamoni era o último dos seus filhos que pensei passar por isto, ele me passa muita força, ele é tão inteligente e comunicativo,esperto, além de muito bonito! Admiro muito o Lamôni!
Neidinha Neves